segunda-feira, 2 de junho de 2008

O Sábio – Episódio II

O Serafim não tocava piano, nem falava francês, mas arranhava, embora mal, uma guitarra portuguesa de afinação estranha e jogava futebol no clube lá da terra. Tinha, obviamente, um ar pálido a que se juntava um par de óculos que deixava escorregar até que ficassem pendurados na ponta do seu nariz aquilino, como um professor dos antigos.
Apesar do ar circunspecto, tinha um humor refinado, a caminho do britânico. Era trotskista e boémio, não acreditava no amor platónico, declamava poesia como ninguém, adorava a capa e, com isto tudo, ganhou a alcunha de “o Sábio”, pois, apesar da sua estranheza, era um gajo tido em consideração por todos os elementos da tuna, até hoje.

Um dos seus episódios mais caricatos deu-se numa saída da tuna, quando foi dormir a casa de outro elemento nosso. Este havia deixado uma cama feita para o Serafim dormir, com lençóis lavados e passados como manda a boa hospitalidade.
Ao chegar a casa do amigo, depois de uma boa noite de boémia, o Sábio – ao deparar-se com a cama feita – vira-se para o hospedeiro e profere quase declamando: “Quem tem capa sempre escapa!”.
Dito e feito. Enrolou-se na capa, deitou-se no chão, e assim dormiu consoladamente toda a noite…

Marcelo Trintão

P.S. Tanto a alcunha como o nome deste personagem não são os originais, por motivos óbvios.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O Sábio – Prólogo e Episódio I

Corriam os anos 90 em força e assistia-se ao final das lutas académicas.

O Serafim era um gajo que havia bebido dos livros – e provavelmente da família – utopias revolucionárias e histórias da luta política à antiga, daquelas com discussões acaloradas pela boémia e pela porrada da polícia. Tudo o que lhe cheirasse a luta estudantil e a uma vida académica significante e marcante seria decerto para explorar. Não era a animação abjecta que procurava, mas tão só a vivência de momentos relevantes no seu percurso, a exemplo do que outras gerações estudantis haviam feito.

Nesses tempos, dois espaços se prestavam a encher-lhe as medidas. O primeiro e mais natural era a política académica, incluindo umas tertúlias informais que por vezes se geravam nesse ambiente das lutas académicas dos 90. O segundo era a tuna, com o seu imaginário das capas pretas, da boémia e da irreverência que transportava.

Tive o grato prazer de me cruzar com este personagem nestes dois espaços. No campo político, partilhávamos discussões infindas à volta de umas cervejolas com mais dois marmanjos – um deles actual presidente de uma câmara municipal, o outro uma referência para a malta da nossa tuna, apesar de estar retirado há muito – e analisávamos a actuação nos órgãos do poder universitário, apesar de sermos de órgãos diferentes e de não partilharmos os mesmos ideais.

Concomitantemente, o Serafim andava na tuna e encarava a coisa com um espírito que não conheci em muitos. Na altura, a praxe da nossa tuna era assim uma coisa um bocado para o insípida, a roçar a mera palhaçada. Isto da tuna sem praxe de qualidade é para meninos e o Serafim ameaçou sair se não fosse praxado com o mínimo de exigência, rigor, dureza e ritual! Julgo que foi aqui que abrimos a pestana e começámos a perceber que a tuna não era só a festa…

Marcelo Trintão

P.S. Tanto a alcunha como o nome deste personagem não são os originais, por motivos óbvios.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A Expo 98 do nosso contentamento.

Foi há 10 anos...

Tocou-me a alma, rever as imagens da Expo 98, ontem, na televisão.
Não por a peça jornalística estar muito bem feita, mas por me fazer relembrar bons momentos, calorosos e emotivos.
Escrevo sobre o tema no tunos&tunas pois o período da Expo 98 foi de uma animação muito grande para mim e para a minha tuna. Tivemos quatro espectáculos agendados nesta exposição sobre os oceanos e acabámos por não conseguir realizar um deles, devido ao mau tempo. Mas os outros três foram realmente muito agradáveis.
Se bem se lembram, muitas foram as tunas que se apresentaram em palco no recinto, tendo, se não me falha a memória, decorrido um festival ou um encontro de tunas.
De qualquer modo, foi uma época gratificante e culturalmente fora de série. A própria existência da Rádio Expo, só com música portuguesa e versando a programação do evento, foi um sinal da evolução de mentalidades em relação à cultura feita por cá.

Muito bom!
Romeu Sereno

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Espaços Culturais, Agentes Culturais e Tunas

Este mundo tem coisas estranhas e às vezes incompreensíveis.
Na “coltura” existem pessoas com formas de estar variadas, lógicas de pensamento diversas e motivações distintas na sua ligação ao fenómeno.

Neste contexto, alguns tipos sempre me fizeram um bocado de comichão. Refiro-me a pessoas que se afirmam despreconceituosas [neologismo justificável neste contexto] sendo exactamente o contrário, a agentes culturais que mais parecem proxenetas apesar de se afirmarem contra a ditadura do capital, e a gestores de espaços culturais públicos que definem a sua programação, em 99% das vezes, para um reduzido número de espectadores. Posso ainda acrescentar os membros do poder político que mandam edificar espaços culturais perfeitamente desadequados das necessidades e com tipologias que originam, per si, défices brutais nas contas de gestão dos mesmos.

Em relação a este último caso, relembro o afirmado pelo Rui Veloso sobre a Casa da Música numa entrevista publicada há um par de anos, em que referia a impossibilidade de organizar eventos não-subsidiados nesse espaço, devido ao elevado custo/espectador decorrente do elevado preço do aluguer do espaço e do reduzido número de lugares.

Os pseudo-despreconceituosos são, notoriamente, uma classe provinda do ambiente politicamente correcto. Afirmam-se contra qualquer forma de discriminação, cultural ou outra, mas praticam-na em quem não pensa de forma idêntica.
Como curiosidade, experimentem passar de fato e gravata, de traje académico, ou mesmo de sapatinho de vela, em certos espaços onde predominem pessoas que se afirmem a favor da liberdade de vestir a seu bel-prazer, sem quaisquer condicionantes sociais. Não se arrependerão, acreditem.
Ora bem, esta tipologia tem o hábito de olhar de lado para tudo o que cheire a cultura académica não-não-convencional, num esquema mental idêntico ao atrás referido.

Os proxenetas anticapital são uma classe curiosa, pois para explorarem melhor os artistas – entre estes, as tunas – apregoam uma espécie do nacional-porreirismo, em que o porreirismo é dos artistas e o nacional é a sua “nacionalização” do trabalho dos outros. Um pouco como aquela malta que vende bonecos a favor de uma qualquer causa das criancinhas, dando 50% do dinheiro arrecadado para as ditas e guardando o restante; malta simpática, esta que cobra 50% de comissão em causas sociais…

Guardei para o fim uma malta engraçada, os gestores de espaços culturais públicos só para alguns. Vieram-me à lembrança por causa de duas salas de espectáculo outrora muito queridas pelas tunas.
Lembro-me dos festivais de tunas no Theatro Circo, em Braga, que enchiam e animavam o local, antes da remodelação. O que se passou? O aluguer do espaço ficou proibitivo? Leva muito menos gente do que antes? Foi essa a razão de as tunas terem passado para o Parque de Exposições? Ou o preço do aluguer só é proibitivo porque “as tunas não se adequam à tipologia do espaço”?
E o TAGV (Teatro ACADÉMICO Gil Vicente), em Coimbra, cuja programação é tudo menos académica? Já foi mau não permitirem espectáculos de tunas, mas impedirem a realização do Sarau Académico da Queima do ano passado nesse espaço, é demais. O evento mais académico de todos, em que diversos grupos da academia se apresentavam em alegria pura, não se pôde realizar no local. Isto passa pela cabeça de alguém?
Não tarda, proíbem a TUP de organizar o FITU no Coliseu do Porto, mesmo tendo o Orfeão ajudado na nobre tarefa de salvar o espaço das garras da IURD.

Já não há pachorra!!!

Tiago Alegre

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Uma Pequena Fita Para Vós

Para comemorar um mês de conversa fiada, fizemos uma pequena fita dedicada a todos vós.
Esperemos que gostem, pois deu-nos um trabalhão dos diabos e à conta disso estivemos mais de uma semana sem aqui escrever nada. É mentira mas não interessa.
Vamos lá a clicar no título abaixo.

A Noite Nem Sempre Bela

Isto é o
título.


Isto é só um
fotograma
da fita.

Gratos pela preferência.

Marcelo Trintão

Sinais dos tempos…


Ainda me lembro…
Aos anos…
Havias de ver…
Aquilo é que era…
Nem imaginas…
Antigamente é que era bom…


De quando em vez, dou por mim a proferir ditos destes em ambiente de tuna. De mal, nada terá – direis vós, considerando a minha provecta idade tunística.
Sei que são expressões estafadas, mas trazem água no bico se analisarmos o contexto em que as uso. Um dos momentos em que tal sucede é em festivais com o prémio tuna + tuna. Diversas tunas participantes nestes eventos apresentam o hábito – que não se verificava por sistema há uns anos – de tocar na área social da instalação cultural enquanto decorre a actuação das restantes no palco “oficial”.
À partida, isto não traria qualquer problema se não se verificassem uns quantos pormenores:
1. Por vezes, o volume de som que produzem ouve-se na sala de espectáculo, dando um efeito de estereofonia esquizofrénica aos espectadores, que passam a ouvir duas actuações numa só;
2. Tocam apenas e durante as actuações das tunas concorrentes e arrumam os instrumentos logo após a votação do júri;
3. Fazem uma rodinha, parecendo tocar apenas para si;
4. Têm a indelicadeza de não esperar que outros ajuntamentos terminem de tocar, transformando uma eventual desgarrada numa guerra surda;
5. Os elementos destas tunas, por hábito, não se misturam musicalmente com outros tunos, a não ser para mostrar que tocam melhor que essoutros;
6. Para corolário, estas pessoas ainda conseguem, sem ver a actuação doutras tunas, refilar por causa da atribuição “injusta” de uma estatueta.

Não questiono quem toca na área social, pois também o faço amiúde. Questiono, sim, quem o faz marimbando-se literalmente nos outros e sem procurar a convivência com as restantes tunas.
Felizmente, estas práticas, apesar de muito difundidas, não estão totalmente generalizadas, o que permite ir revivendo a tal época (decerto muito naïf) em que se viam ajuntamentos de elementos de várias tunas em verdadeiro convívio musical… e sem incomodar quem actuava em palco.

Sinais dos tempos…

Romeu Sereno

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Quarentuna, Tuna de Veteranos, Tuna Antiga ou Antigos Tunos

É à escolha. Tudo isto são carapuças que servem nas cabeças não de muito boa gente mas de gente muito boa. Aqui está uma excelente ideia para a malta que já sente os anos a pesar e a peluda a chegar…
A Tuna de Veteranos de Viana do Castelo organiza, nos dias 02 e 03 de Maio de 2008, o 1.º Certame Internacional de Quarentunas de Viana do Castelo. Este é o décimo segundo evento do género realizado a nível internacional e o primeiro no nosso país.
Entrem aqui para saber mais: http://www.tunadeveteranos.com/.

Romeu Sereno

Importa-se de Repetir?

Amigos, desculpem-me, mas não resisti…

Isto não é sobre tunas, mas esta senhora quase parece um apresentador manhoso; como um que, num espectáculo em que actuei, abriu a bocarra e proferiu: “Já de seguida, vamos ter o Grupo Tuna”.

“(…) Tem miúdos que levam canivetes, tem casos de alunos que levam a espingarda do pai que é caçador. Tem um conjunto de casos muito variados.”
ww1.rtp.pt/noticias/index.php?article=337487&visual=26
Maria de Lurdes Rodrigues, Ministra da Educação, desvalorizando a existência de armas nas escolas.

Muito bom. A minha alma está parva e as dos miúdos que vão caçar gambozinos para as escolas com a caçadeira dos pais também devem estar.
Aliás, aqueles grupos de jovens da paróquia que pregam o bem na saída de algumas escolas levam caçadeiras para ensinar os mais novos a caçar no pátio da escola. Além de terem canivetes nos bolsos para fazer esculturas de madeira no intervalo das aulas.

“Dá-me a caçadeira já!”

Tiago Alegre

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Afinal de que te serve a capa?



Marcelo Trintão

quarta-feira, 2 de abril de 2008

De Final de Março a Final de Junho

Eventos com Tunas
– Desculpem-nos a definição nos gráficos apresentados, mas foi o possível. –

Por mero acaso, ao consultarmos a Agenda do PortugalTunas, deparámos com umas pequenas curiosidades relativas à distribuição dos eventos com tunas no período que medeia de final de Março a final de Junho. Decidimos pôr mãos à obra e fomos ver como andava a dispersão cronológica e geográfica destes acontecimentos.
Em relação à unidade de medida cronológica das tunas, achámos por bem redefinir as bases e em vez de dias, semanas ou meses, optámos por criar uma semana de cinco dias, a começar na quarta-feira e a terminar ao domingo. Curiosamente, apesar de deixarmos as segundas e terças-feiras de parte, durante este período, nenhum evento ficou por contabilizar. Ou seja, a unidade de tempo definida parece estar adequada à realidade.
Naturalmente que os dados apresentados não devem ser extrapolados para o conjunto da época académica. O prazo escolhido deveu-se apenas à procura de actualidade e a serem os dados disponíveis até ao final do ano académico.
Apresentamos, então, dois pequenos gráficos, baseados apenas nos dados recolhidos na Agenda do sítio PortugalTunas no dia 25 de Março de 2008.

Dispersão Cronológica Segundo o Tipo de Evento


Nota: Considere-se que, quando referenciamos, por exemplo, eventos de tunas femininas, isso se refere à tipologia do evento que não a apenas actuarem tunas femininas.

Dispersão Geográfica do Número de Eventos


Nota: Os distritos das regiões autónomas foram agrupados por região.

Competição em Eventos de Tunas






















Dados adicionais

Nos dados de base, reconhecem-se alguns pormenores interessantes.
O distrito do Porto surge destacado como o mais realizador neste período, com Lisboa em segundo lugar e Setúbal em terceiro.
Sempre que há eventos numa semana tunística, o Porto organiza pelo menos um evento até à data de 30 de Abril, quando decorre o último referenciado neste distrito.
Considerando o universo apresentado, a Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico (TUIST) tem o condão de surgir como participante na organização de três eventos em apenas mês e meio.
Como curiosidade, registe-se que o Algarve acolheu dois dos seus três eventos na mesma semana tunística. Neste período, Beja, Açores e Madeira não apresentam eventos referenciados.
Em relação à natureza dos eventos (segundo a existência de competição), é de notar que os eventos competitivos representam três quartos dos realizados.

Espero que tirem as vossas conclusões. Nós tiraremos as nossas…

Romeu Sereno